segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O LP que não comprei



Eu acompanhei a crise econômica mundial dos últimos meses de duas formas: de forma séria - como um evento histórico importante que merece atenção - e de forma debochada - como uma espécie de vingança, sabe aquela do prato frio? Pois é, não posso me alienar de um fato tão importante da minha época, mas ao mesmo tempo adoro ver o centro do capitalismo ameaçado.

Enquanto escrevo, dois fóruns mundiais, o de Darvos (na Suíça) e o Social (em Belém do Pará) discutem a crise, também sob ângulos opostos. Para os representantes do neo-liberalismo reunidos em Darvos, alguns fantasmas marxistas podem se tornar realidade – estatização, por exemplo. E para os esquerdistas em Belém talvez uma ou outra estratégia suja e velha conhecida do mercado possa ajudá-los a atingir alguns objetivos

Não vim aqui falar de economia, mas essa crise fez muita gente mudar de opinião. Isso é ótimo. Apesar de ver com bons olhos esta mudança, me vi afetado por algo fútil que fez parte de meus hábitos ano passado. Aproveitei a baixa do dólar e importei alguns LPs. Alguns deles divulgados aqui. Com a crise, as verdinhas ficaram caras e a importação se tornou inviável. Por volta de 50% de aumento. Se eu recebi na porta de casa um vinil novinho da Amy Winehouse por 32 patacas, agora me custaria cincoenta.

O primeiro LP que eu deixei de comprar por causa da crise foi esse aí da foto. O álbum “Goo” do Sonic Youth é de 1990. A banda se formou em 1981 e este é o primeiro disco por uma grande gravadora. Numa época que a música não tinha a internet para divulgá-la, ser distribuída por um grande selo fazia muita diferença.

Eu devo ter conhecido este disco por volta de 1994, junto com o sucesso de “100%” de outro álbum deles chamado “Dirty” (de 1992), o mais pop e palatável do Sonic Youth. Tanto que as rádios tocaram muito e, “Sugar Kane”, do mesmo álbum, também tocou até enjoar. Assim, parti para conhecer os álbuns anteriores e cheguei no “Goo”. Já, já, eu conto porque fiquei com tanta vontade de comprá-lo.

O que preciso dizer antes é que me parece que Sonic Youth sempre foi mais escutado e preferido entre as mulheres. Fiz até uma pesquisa de campo. Os homens sempre acham que aquela barulheira é puro charme e que qualquer um pega uma guitarra e sai fazendo microfonia. Eu sempre os associei à Velvet Underground e a cena “no wave” novaiorquina. Coisa que “qualquer um” não faria com facilidade, talvez nem em covers. Já as mulheres sempre apreciam aquela melancolia adulta, o baixo distorcido de Kim Gordon, os altos e baixos das músicas e até, quem diria, a microfonia improvisada que sempre acontece. Fecho com elas em gênero, número e grau.

Eu comprei o álbum “Goo” em formato CD há uns dez anos atrás. Portanto, se escuto, é lógico que reconheço. Mas, numa noite na Casa Belfiore, bar que os garçons servem Guinness e tocam discos de vinil, reconheci o álbum com algumas diferenças. Pequenas mudanças nas gravações até ouvir um lado inteiro diferente. Não agüentei e pedi pra ver a capa. O que se abre aos meus olhos ali no balcão é uma caixa com 4 vinis e livreto com fotos. Foi foda! A vontade era de sair dali ainda com o pint de cerveja na mão e procurar uma loja que vendesse a caixa.

Procurei pela internet em casa, namorei a caixa que se chama “Goo – Deluxe Edition – Box Set 4 vynil” e os efeitos da crise já foram explicitados no começo deste texto. É uma caixa com sobras de estúdio, versões demo, gravações ao vivo, experimentações, improvisos e, claro, o álbum inteiro original.

O clipe que deixo aqui pega leve nas distorções, é um tanto pop, mas eu gosto muito. Tem a participação de "Chuck D" da banda de hip-hop "Public Enemy", o que torna a música com uma proposta um tanto moderna para a época. Chama-se "Kool thing". Aproveite!



domingo, 25 de janeiro de 2009

Aniversário com música

Powered by beta.joggle.com
Justificar completamente

O blogue fez um ano. O primeiro texto foi publicado no dia 2 de janeiro de 2008. Eu não lembro do aniversário de ninguém e quase este também passa desapercebido. Só não aconteceu porque a comemoração acabou virando post, e como o recheio por aqui anda meio raro, aproveito para pôr idéias simpáticas em prática. Hoje é aniversário de São Paulo e nem lembrei.
Nada de balanços, ok? Quem cuida disto são os contadores e administradores. Sei que sou mais feliz agora com este espaço, mas não quero me comprometer com nada. Se melhorou , piorou, diminuiu ou cresceu, penso comigo mesmo e não passo pra frente. Mesmo porque, esqueço de tudo logo que acordo ou antes mesmo de dormir.
Não há como negar que durante este ano o conteúdo foi repleto de música. Seja por citações em textos, seja por falar de discos de vinil que importei ou por sensações que as músicas me causam. Para comemorar, preparei um set list com 32 músicas que fizeram parte do blog. Elas estão nos textos direta ou indiretamente.
Abaixo, na relação das músicas, cada uma delas é um link que leva direto ao texto que a inspirou. O player que as tocará é uma novidade pra mim. Espero que não dê problemas. Mas é possível avançar ou retroceder músicas e optar por repetí-las ou deixá-las em shuffle. Se quiser ouví-las e ler o texto correspondente ao mesmo tempo, precisará de duas janelas abertas no blog.

Aproveite

"Me jane" - PJ Harvey
"Meu fraco é café forte" - Rio 65 Trio
"Cidade vazia" - Milton Banana Trio
"Você gosta" - Suba
"Mexican Guy" - The Stooges
"If you can want" - The Dirtbombs
"Caia na estrada e perigas ver" - Os Novos Baianos
"Divino maravilhoso" - Gal Costa
"Just Friends" - Amy Winehouse
"Brittle" - Stereolab
"The sidewinder" - Lee Morgan
"Handle song" - Soledad Brothers
"The breaks" - The Black Keys
"Tenderly" - Billie Holiday
"Wreck my flow" - The Dirtbombs
"Leave Me Alone So I Can Rock Again" - Jon Spencer Blues Explosion
"Trash" - New York Dolls
"A car goes fast" - MQN
"Hey amigo" - Cachorro Grande
"Bam bam" - Sister Nancy

"The Lost Art of Keeping a Secret" - Queens Of Stone Age
"Back In The Day (Puff) (Feat. Lenny Kravitz)" - Erikah Badu
"Got A Thing On My Mind" - Sharon Jones & The Dap-Kings

"Acabou chorare" - Os Novos Baianos
"Paulista" - Eduardo Gudin e Vânia Bastos

"Eu sou melhor que você" - Mulheres que dizem sim
"Arrivederci" - Moreno + 2
"Solar" - Domênico + 2
"O seu lugar" - Kassin + 2

"Minha menina" - Os Mutantes
"DIG DIG DIG (hempa)" - Planet Hemp
"Space cowboy" - Jamiroquai

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Férias




Tentei, tentei, tentei e não consegui escrever. Me esforcei e os textos ficaram incompletos. A segunda tentativa de texto explicava porque a primeira tentativa não ficava pronta e no fim nada saiu. Este já é o terceiro. Apesar de insistir, eu nem me incomodei. Logo, outra coisa me divertia e eu perdia o prumo. Afinal, quanto mais eu penso em freqüência, menos realizo. Se a produção ficou pela metade, a outra metade encontrou a preguiça, os amigos, as amigas,os bares, as estradas e as noites quentes sem fazer nada.
Me toquei que estou de férias do blogue por causa de um comentário feito ontem, dia 19/01, pela colega blogueira Mari Bortz. Ela percebeu que aproveito bem o verão. Pode ter certeza, Mari. As noites estão lindas. A Rio-Santos me deixa sem fôlego no trecho Boracéia-São Sebastião. Holambra me oferece gérberas e gastronomia requintada. O fogão me empolga e faço comidas baianas e mexicanas com disposição.
Mas não estou de férias do meu trabalho. Ele tem me deixado sem inspiração. Me suga mesmo. Chego cansado e a última coisa que quero fazer é escrever. Uma pena. Mas para descansar e esquecê-lo faço outras coisas, o que não inclui atualizar o blog. Gosto de imaginar as palavras, não escrevê-las. Haverá algum método que me ensine a transportá-las sem tanta preguiça?
Nem o aniversário de 1 ano do blogue me tirou do ritmo de férias. Até que tive uma idéia simpática de post pra comemorar. Espero ter pique para concretizá-la.
A foto foi tirada na Rio-Santos, no dia 10/01 último,por volta das 19 e 30 (horário de verão, evidente), entre as praias de Guaecá e Barequeçaba, no município de São Sebastião.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

domingo, 2 de novembro de 2008

Um dia qualquer: terça feira




Nunca desprezo nenhum dia. Eles podem se transformar completamente e se agitar de forma frenética ou cair em malemolência profunda. Se essas mudanças vão me agradar ou não é outra estória. Mas, o hábito de proferir frases contra alguns dias da semana não se apossou de mim. Pelo contrário, sempre os elogio. O nome deste blog faz referência direta ao dia da semana que talvez seja um dos mais odiados – não por mim. Só deve perder para a segunda-feira.

Durante muito tempo, não tive dia certo para trabalhar ou folgar. Finais de semana e feriados trabalhando intercalados com dias úteis bundando. Para mim, se tornavam mais úteis ainda. Aprendi a enxergar os dias de outra maneira. Sem a relação de obrigação versus ócio: para mim é tudo misturado. Não existe dia certo para isso ou dia certo para aquilo. Sempre citei o ócio criativo aqui no blog por acreditar nessa estratégia. Isso não quer dizer que eu não goste de trabalhar. Intercalar, de forma produtiva, folga e trabalho parece ser a grande sacada.

E, naquela terça-feira (23/09), um dia qualquer começava. Friozinho, banho quente, rádio Cultura AM para ouvir música e notícia, cheiro de café incensando a casa, o gato mia para pedir o desjejum. Aproveitei que ainda era cedo e baixei os 3 discos do trio Kassin, Domenico e Moreno.

A novidade nos fones de ouvido me obrigou a ir à pé até o trabalho. Vinte e cinco minutos para ir conhecendo um pouco desses três álbuns. Digo que o primeiro contato com eles foi uma ótima companhia: não estorvaram meu café com leite e a canoa (pão com manteiga na chapa); se comportaram direitinho quando passei pelo meio da feira, pois até o volume diminuiu e os feirantes conseguiram berrar no ritmo da música; aproveitaram e reforçaram o colorido do segundo dia de primavera e, quando cheguei ao meu posto de trabalho, fiquei triste de desligá-los para bater o ponto.

Após duas horas de paulada no atendimento - telefone, fax, simulações e assinatura de contratos - fiquei sabendo que iria ao centro da cidade deixar certos devedores mais conhecidos em alguns cartórios.

Os cartórios de notas se concentram nas imediações da Praça da Sé. Meu roteiro foi: Rangel Pestana, Pátio do Colégio, 15 de Novembro, Quintino bocaiúva, Brig. Luis Antônio, Pça. João Mendes e outras por ali. E foi nessas ruas que tive o segundo contato com os álbuns do trio, baixados pela manhã. Foi demais a sintonia da música com o centro velho de São Paulo. Diria que ter a idéia de fazer o download desses caras foi meio profético, mesmo que eu não tenha percebido.

O normal para mim sempre foi ouvir Sonic Youth, Velvet Underground ou Jesus & The Mary Chain para combinar com o centro velho de São Paulo. Nunca imaginei que três cariocas podiam fazer essa trilha. Podiam ser cariocas e fazer rock? Sim, sim. Mas não é o caso. Eles fazem MPB eletrônica, com ecos de Bossa Nova, João Donato, Marcos Valle e tecladinhos vintage. No máximo um rock ingênuo.

Eu estava lá, na janela do ônibus, vendo gente com placas de “compro ouro” na mão, malandros encostados nas paredes, gente engravatada com ternos baratos, moleques de rua, office-boys, e a música combinava direitinho. Meu olhar até conseguia editar os andares das pessoas e os movimentos de mãos de quem conversava. Às vezes em slow motion, às vezes mais corrido. Num momento, olhei tudo cinza quando a música ficou um pouco mais triste. Eu encontrava personagens para as canções que ouvia no fone de ouvido.

Andando naqueles calçadões, ouvindo a gritaria dos camelôs, olhando aquela arquitetura imponente, me senti em casa. Tão em casa, que quase fui atropelado por 2 motos. A música me deixou meio chapado, sem querer. Fiquei com um sorriso carimbado no rosto. Achava tudo lindo e prazeiroso. Devo ter dado bandeira.

Era impossível não se render à poesia desses caras. Do álbum de Kassin+2, “Futurismo”, saiu uma dessa:

“Quando você saía

A casa entristecia

As torneiras choravam

As portas esperando

Você voltar

Pra alegrar

O seu lugar”

(O seu lugar)

Ou do álbum de Moreno + 2, “Máquina de fazer música”:

“Eu não gosto tanto de você assim

Mas sempre que você se afasta de mim

Eu confesso que já não consigo te esquecer, menina”

(Arrivederci)

E do disco do Domenico + 2,”Sincerely hot”:

“Cedo ou tarde

De manhã

Sem destino

O abismo é total

Sem parar

Vejo você”

(Solar)

Às 16 horas eu ainda não havia almoçado. O bairro da Liberdade é muito perto da Praça da Sé. Corri para o “Karê Ya”, restaurante coreano/chinês/japonês especializado em curry. Karê é como o japonês pronuncia curry. A comida é hot hot hot. Não dá para comer num dia quente.

Tracei um “bibimpá”, que leva arroz crocante com gergelim, o karê de carne e legumes, acelga na conserva bem apimentada e um molho agridoce. O prato é servido numa panela de ferro e uma base de madeira. Sentindo o gosto da pimenta e da cerveja na boca, sorri ao constatar que a simples terça feira me trouxe tanta diversão.


domingo, 12 de outubro de 2008

Bilhete


Faz dez dias que estou sem internet em casa. Atualizo esse post direto de uma lan house mal cheirosa, barulhenta e desconfortável. Servirá apenas como um bilhete, pelo visto. Não quero ficar aqui nem meia hora. Gente estranha, mal educada e meio perturbada por perto.
Ficar off line nesse perído foi ótimo. Aprendi a organizar meu tempo na internet, respirar mais coisas reais, ver os amigos, sentir a vida pelo vento - e não por bytes. Fiquei com saudade dos blogs que lia rotineiramente e de atualizar o meu. Mas nem isso foi motivo para me conectar. Logo voltarei à carga. No final deste bilhete colocarei a letra de uma música que talvez relacione o que eu penso e reflito sobre a internet. Ao lado de tantas vantagens e benefícios, um certo espírito mentiroso paira sempre no mundo on line.
Eu fiquei sem água também nesse período. Três dias de banho de canequinha. E olha que fez frio, viu? A SABESP veio modernizar as instalações da rua e voltei pro século 19. Foi divetido - agora visto de longe. Cozinhei menos e lavei menos louça.
Todas essa privações foram acompanhadas da greve da minha categoria. Nada de ficar em casa. Sou delegado sindical e tenho que ficar na rua engrossando o movimento, fazendo piquete bem cedinho. Mas eu gosto de piquetar, mesmo que esteja frio. Estou exausto. Meu rosto queimado de sol parecendo que cortei cana na roça.
Está tudo bem. Adoro me sentir cansado e ocupado. É sério! Falo muito do ócio criativo, mas sempre intercalado com trabalho, que fique claro.
Deixo uma letra do Moreno Veloso - filho do Caetano com o o mesmo sobrenome - para dar um exemplo do que penso sobre internautas. Ele faz parte de um trio que não tem nome, junto com Kassin e Domênico. Quando lançam disco o nome do artista fica assim: Moreno + 2, Domênico + 2 e Kassin + 2. Isto quer dizer que o disco tem composições do músico em questão, mas o trio permanece o mesmo. Esse trio me inspirou um passeio pelo centro de São Paulo e logo colocarei um post sobre esse dia. Aguardem! O disco do Moreno chama "Máquina de fazer música". Essa música também fez parte do repertório da ex-banda do Moreno chama "Mulheres que dizem sim". E uma banda aqui de São Paulo - o Banzé - regravou também. Com o Moreno virou uma bossinha só no violão.
Ô bilhete longo!
A foto feita por mim e tem mais de 3 anos: um fio de modem no assoalho.

"Eu sou melhor que você"
(Moreno Veloso)

Todo mundo acha que pode, acha que é pop, acha que é poeta.
Todo mundo tem razão e vence sempre na hora certa.
Todo mundo prova sempre pra si mesmo que não há derrota.
Todo homem tem voz grossa e tem pau grande,
E é maior do que o meu, do que o seu, do que o do Pedro Sá
Todo mundo é referência e se compara só pra ver que é melhor.
Todo mundo é mais bonito do que eu mas eu sou mais que todos.
Todo mundo tem suingue, é feliz, é forte e sabe sambar.
Todos querem mas não podem admitir a coexistência do orgulho e do amor porque:
Eu sou melhor que você, Boa viagem.
Eu sou melhor que você mas por favor fique comigo que eu não tenho mais ninguém
Todo mundo diz que sabe e quando diz que não sabe é porque,
é charmoso não saber algo que todas as pessoas já sabem como é.
Todo mundo é especial, é original, é o que todos queriam ser.
Não basta ser inteligente, tem que ser mais do que o outro pra ele te reconhecer.
Todo mundo ganha grana pra dizer que ela não vale nada.
Todo mundo diz que é contra a violência e sempre dá porrada.
Todos querem se apaixonar sem se arriscar, nem se expor e nem sofrer.
Todas querem vida fácil sem ser puta e com reputação,
Se reprimem e começam a dizer:
Eu sou melhor que você.
Eu sou melhor que você mas por favor fique comigo que eu não tenho mais ninguém!

É melhor que você,
Mais ninguém é melhor que você.

Todo mundo acha que pode, acha que é pop, acha que é poeta.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Que merda! (Notícia que envolve o post abaixo)


MOJO Club temporariamente adiado
Posted in September 17th, 2008
por danilocorci in Avisos

E viva SP: com imensa dor no coração teremos de cancelar o primeiro MOJO Club no Tapas!!! A Prefeitura de SP prometeu alvará para o dia 10, hoje é dia 17 e não chegou ainda, o dono do Tapas resolveu adiar os projetos dessa semana. Assim que tudo estiver estabilizado, o MOJO Club – happy hour mais ninja do mundo – estreiará!
http://www.mojobooks.com.br/


segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Vamos ler coisas dos outros?


Eu sou muito desorganizado. Não posso culpar a falta de tempo ou a falta de inspiração pela minha ausência por aqui nesse espaço. Sim, sim, ando sem tempo ultimamente, cheio de obrigações em todos os horários, mas esse ritmo me deixa bastante inspirado. Não escrevo por preguiça mesmo. Quando me sobra um tempo, o computador não é a melhor companhia. Conheço muitos bares, muitas pessoas e muitos livros para curtir um ócio criativo.

Ficaria muito feliz se eu conseguisse postar um texto por semana e mantivesse essa média sempre. Ótimo para me exercitar na escrita, bom para os leitores assíduos, mas péssimo para mim que não cumprirei a promessa. Não prometeria isso nem a caralho. Sou craque em me enganar.

Já considerava que neste mês de setembro eu publicaria muito pouco (talvez isso ainda se confirme), mas uma mensagem de correio eletrônico me deu uma boa animada. Eu não atualizo o blog sempre, mas na minha cabeça ele está recheado até o final do ano e, um desses posts imaginários, é a indicação de alguns textos gratuitos distribuídos na rede mundial. Essa idéia de indicar, sugerir, recomendar através do blog, é uma inspiração bem produtiva de um blog parceiro, de um amigo de longa data: o Videodrome, do Malta. Farei isso aqui.

Lá, descobri um site delicioso de textos gratuitos e com uma inspiração ímpar. É uma editora digital chamada “Mojo books”. O mote dos seus textos são álbuns da música pop, ou seja, “se música fosse literatura, que história contaria?”, segundo a própria Mojo. O autor, ou autora, escolhe um álbum, escreve um texto ficcional sobre ele e faz um upload. Encontramos textos inspirados em discos dos mais variados artistas: desde Beatles, Nirvana e The Cure, até Chico Buarque, Odair José e as cantoras Fiona Apple e Amy Winehouse. Tem de tudo. Mesmo. Alguns domingos atrás, o programa literário “Entrelinhas” da TV Cultura mostrou a editora, suas idéias e seus fundadores. Vale a pena conferir. Um pequeno cadastro e você baixa o livro com capa e tudo.

Foi o newsletter deles na minha caixa postal, contando uma novidade muito boa que me animou a escrever esse post. A Mojo fará um happy hour às quintas feiras, no bar Tapas, ao lado do famoso bar Ibotirama na rua com igual fama: a Augusta. O drink principal será o delicioso - e óbvio - mojito. O nome Tapas também carrega outra obviedade, já que a casa é especializada nos aperitivos espanhóis chamados “tapas”. A estréia do “Mojo club” é nessa quinta (18/09) às 18 horas. Eles prometem um “double mojito” até às 21 hs. Outra dobradinha interessante é a composição dos DJs dessa semana: Clarah Averbuck e Mario Bortolotto.

A primeira é escritora, cantora em bandas undergorund e ficou conhecida escrevendo em blogs e fanzines digitais. O filme “Nome próprio” de Murilo Salles é inspirado em dois livros seus: “Máquina de pinball” e “Vida de gato”. O segundo é dramaturgo, músico, escritor, diretor de teatro, ator e também tem um texto que inspirou a realização de um filme: “Nossa vida não cabe num opala” de Reinaldo Pinheiro. Nos palcos de teatro se chama “Nossa vida não vale um chevrolet”.Curioso pelas suas discotecagens, estarei lá.


-- -- -- --


Aproveitando essa onda de indicações, sugiro o download gratuito do livro “Máquina de Pinball” (foto) da Clarah Averbuck e a leitura do seu blog, o “Adiós lounge”. Tente num desses dois links:

http://somdoroque.blogspot.com/2008/06/mquina-de-pinball-clarah-averbuck-livro.html

http://www.lojaconrad.com.br/download_maquina.asp

Veja um “control c control v” lá do blog dela sobre o download gratuito de seu livro: “eu acho sensacional. nunca vou ser bestseller e prefiro ser lida do que ficar esperando a merreca da porcentagem. e gosto também da idéia de deixar a obra original mais perto das mãos de quem nunca me leu”. Adoro essa falta de letras maiúsculas em seus textos. Deve ser influência do Bukowski.

Clarah cantava numa banda muito legal chamada “Jazzie & Os Vendidos”, um trio de punk-blues. Assisti shows deles nos clubes “Berlim” e “Funhouse” e na festa de aniversário da Funhouse que foi no galpão que hoje abriga o Clube Belfiore. Saudade dessas apresentações.


-- -- -- -- --


Mais uma indicação aí? Ah, sim sim.

A Editora do Bispo tem downloads saborosos também. José Simão, Paulo César Pereio, Xico Sá, entre outros, estão lá na lista. Tudo de graça. A editora foi fundada em 2005 e tem como ideário lançar livros “na contramão da caretice e do conservadorismo do mundo editorial” e têm “a beleza do pecado e da desobediência”. Um dos lançamentos é o livro da Clarah Averbuck, "Nossa Senhora da pequena morte" que tem como embalagem um vinil que você escolhe na hora. Veja o que a própria Clarah diz: "O livro, que tem a maioria das páginas escritas à mão ou datilografadas, vem dentro de capas clássicas de velhos e bons long-plays (LPs), com direito a vinis de rock, blues, jazz, clássicos e até raríssimos vinis mexicanos. O leitor pode escolher o seu “Nossa Senhora...” de acordo com o seu pendor musical". Convidativo pra caralho!

http://www.editoradobispo.com.br/site/download.php


-- -- -- -- --


A última indicação é o livro “Ovelhas que voam se perdem no céu” de Daniel Pellizzari. Lógico que a indicação também é gratuita e via download. Tente aqui:

http://mojo.livrosdomal.org/

O autor nasceu em Manaus, mas cresceu em Porto Alegre. Também escreveu bastante na internet e é da mesma turma de Clarah Averbuck no fanzine digital “CardosOnline”. Fundou a editora “Livros do mal” em 2001 com outro Daniel, o Galera. Conheci sua obra com “O Livro das Cousas que Acontecem” que um amigo de faculdade emprestou. Gostei muito. Uma seleção de contos que parece uma pedrada na testa.


-- -- -- -- --


Se eu pegar gosto de postar indicações talvez aumente minha freqüência por aqui. É que esse papel pode parecer uma coisa tão pedante...mas eu não penso assim, tá? Só quero compartilhar algumas formas de arte que me tocam, que me surpreendem, que me ensinam, que me esquentam em noites frias. Aliás, o frio hoje me acompanhou enquanto escrevia. Foram poucos dias assim nesse inverno de “araque”. Estava com saudade de um chá bem quente e torradas com manteiga “Aviação”.


terça-feira, 26 de agosto de 2008

Dois LPs de cantoras negras


Optei por mudar um pouco de estilo nas compras e importei dois vinis de cantoras negras. Uma é Erykah Badu, a diva da nova soul music (ou nu-soul). A outra é Sharon Jones, a cantora que, com sua banda (os Dap Kings), inspirou o recente álbum de Amy Winehouse. Badu faz uma música negra que olha para o futuro e Jones quer sonoridades do passado. Enquanto a primeira aposta em timbres digitais, a segunda procura os timbres valvulados. Elas têm ainda mais características opostas, mas minha escolha não foi pensada nessa oposição. Foi sem querer. Lá no site da Amazon, enquanto comprava, nem pensei nisso.

Conheci Erykah Badu dez anos atrás com o seu álbum de estréia (“Baduizm”, de 1997) premiado com Grammys e estourado na Billboard americana. Misturava jazz com batidas hip-hop feitas na mão, sem Djs. Na época diziam que o timbre de sua voz lembrava muito Billie Holiday. Sua música possui um clima sofisticado sem ser pedante, pois mantém aquele bom gosto dos músicos negros e não deixa que a fama estrague seu charme ou mude suas composições. Essa presença do jazz foi diminuindo com o tempo e hoje está mais influenciada pela soul music, mas continua classuda. Ela não grava tantos álbuns. Fica períodos longos sem lançar discos para se dedicar à maternidade, mas sempre grava com artistas do hip hop em participações especiais. No total possui quatro álbuns e um gravado ao vivo.

Sharon Jones, entretanto, conheci somente este ano, quando fiquei curioso e interessado pelo groove do álbum “Back to black” da Amy Winehouse. Uma gingada muito parecida com os discos das consagradas gravadoras Motown e Stax. Essa sonoridade, que me remete diretamente à soul music sessentista, vem da banda Dap Kings. Descobri que eles tocam com Sharon Jones antes de tocar com a garota problema de Londres, que ouviu a negrona americana e ficou de quatro. Outra característica oposta à Erykah Badu, que gravou um álbum aos vinte e poucos, é que Jones sempre quis ser cantora, mas gravou seu próprio álbum depois dos 40 anos. Contribuía aqui e ali na década de 70 como backing vocals e, aos 30 anos, resolveu entrar para a polícia. Foi agente numa prisão e depois vigilante de carro forte. Voltou a cantar e gravar quando encontrou os Dap Kings, banda que só se interessa por instrumentos analógicos e continua com os timbres da década de 60. Veja aqui um video clip que também tem essa preocupação retrô. Até a capa do disco, conforme foto acima, tem a preocupação de parecer antiga. Jones tem uma voz poderosa, de longo alcance e tão suingada que chacoalha o esqueleto de qualquer defunto.

A música negra me acompanha desde a infância. Cresci nos anos 70 e era fácil ouvir hits de negões em qualquer lugar. Mais fácil para mim que tinha uma avó negra, madrasta da minha mãe, que é bem branquinha. Ela nem ouvia tanto os sucessos da soul music brasileira ou internacional, mas seus primos e tios, todos de black power bem penteado, ouviam a tarde inteira para alegrar meus sábados e domingos no bairro Casa Verde. Carrego esse banzo até hoje quando escuto Stevie Wonder, Marvin Gaye, Otis Reding, Jackson Five, ou as Supremes, as Marvelettes, e também os brasileiros Cassiano, Tim Maia, Hyldon. Ainda me dão aquela sensação de sábado ensolarado e bons sentimentos. E ainda hoje, até outros artistas que tocam algo parecido, ou artistas que soltam um pequeno falsete, seja Lenny Kravitz imitando Curtis Mayfield ou K. L. Jay (da banda Jamiroquai) imitando Stevie Wonder, também me levam a esse sentimento.

Pouco depois dessa época da Casa Verde, íamos sempre para o apartamento da minha tia na Rua Clélia e, lá de cima, uma vista bonita para o Pico do Jaraguá, para boa parte da zona norte e para as estações de trem da Lapa e da Água Branca, também me inspiravam porque vinham acompanhadas de mais música negra. Mas aí já era a década de 80 e eu mesmo escolhia os discos para tocar. Mais sábados ensolarados com cheiro de pastel de feira, cheiro de frutas frescas e os negões na vitrola. Na adolescência, eu descobri o rock e ele ofuscou um pouco esse gosto. Quando ouvia música negra, eram somente as novidades do hip hop. Voltei a ouvi-la com mais freqüência por volta dos meus vinte anos de idade. E não parei mais. Aprendi que brancos não fazem músicas românticas: fazem músicas piegas. Mas a música negra sim, ela toca o coração de verdade. Ou então é doidona, dançante e cheia de vigor.

As coisas ficaram assim: o álbum que comprei da Sharon Jones se chama “Dap Dippin” de 2001. Cheio de suingue, lógico, deixa essas cantoras branquelas da moda no chinelo. A banda recheia o disco de forma sensacional, com direito até àquelas entradas a la James Brown, quando a banda apresenta o cantor com uma levada dançante e rápida de fundo e depois, no final, se despede dele da mesma forma. Já o LP que comprei da Erykah Badu se chama “New amerykah – part 1 (4th world war)”. Ela promete uma trilogia com o mesmo nome. Em vinil, o álbum é duplo. Algumas músicas têm texturas eletrônicas bem sutis e a voz dela preenchendo, outras têm apelo mais dançante. Deixarei aqui o clipe de “Honey”, um sonzaço com uma batida hip hop deliciosa, bem marcada. Reparem que ela aparece cantando na capa de vários discos clássicos da música negra ou da música pop. São 13 capas de vinis e uma revista, com capa também clássica. Veja aqui a relação destes álbuns. Eu só consegui acertar 4 LPs antes de ver esse site dando a letra. Fiquei muito satisfeito com a compra.


segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Canção de ninar

(Domingo boêmio na cidade pequena)

1.

Despertei do cochilo com os cutucões de Angélica, com sua voz e com o sol ardido que acabara de nascer. Ali, no banco de plástico da rodoviária, percebi que eu havia perdido o ônibus para voltar para casa. Naquele horário, já estaria no meu bairro.

Angélica falava muito, mas eu não entendia nada. Supondo que eram perguntas como “o que está fazendo aqui a essa hora?” saí respondendo frases cheias de palavrões e de irritação matinal. Ela estava levemente alcoolizada e suas risadas foram me acalmando. Eu devo ter feito um papel cômico acordando irritado e transtornado. Quando comecei a ouvi-la, percebi que insistia e insistia:

- Não volte. Não gaste mais dinheiro. Venha com a gente. O hotel tem apartamentos livres – disse de forma firme e convincente.

2.

Trabalhávamos juntos. Eu estava na equipe de Angélica há 15 dias. Nosso turno era das 8 da noite às 4 da manhã em eventos pelo interior de São Paulo. Escolhi este horário para me adaptar à falta de controle sobre meu sono. Eu não combati o problema: me aliei à insônia ao trabalhar na madrugada. Voltava para casa, ao invés de me hospedar na cidade, para ficar mais cansado e conseguir adormecer. Eu não queria folga no trabalho para não ter intimidade com meu apartamento. Ele trazia lembranças que me consumiam. A diária do hotel sobrava no meu bolso e essa economia me tiraria daquele lar cheio de fantasmas noturnos.


3.

Angélica me encontrou porque fazia seu happy hour perto da rodoviária. “Ora, se um executivo toma seu drinque ao entardecer, por que eu não posso fazê-lo ao amanhecer?” disse rindo e olhando para seus dois cúmplices, também da equipe, que a acompanhavam. Divertiu-se mais ainda com os dois quando lembrou de outro argumento para ir bebericar antes de dormir: a espera diária do trem barulhento da madrugada partir. “Ele apita, freia, engata vagões, os funcionários gritam, mas às 6 e meia da manhã já estamos bêbados e o silêncio reina novamente”. Ela ficou curiosa em saber por que eu voltava todos os dias para casa. Menti que queria guardar dinheiro para viajar. A mentira foi tão boa que a levei a sério.

Subindo as escadas de madeira, ela alertou o recepcionista que não me deixasse sentar enquanto preenchia meu cadastro, pois eu teria mais um ataque de sono. Os três riram muito alto, mas logo abafaram o riso com as mãos para não acordar os hóspedes. Nem eu e nem o recepcionista de mau hálito conseguimos rir.


4.

O hotel era antigo, de alta rotatividade e ao lado da estação ferroviária desativada para transporte público. Não lembro o seu nome. Talvez porque o néon piscasse e falhasse em algumas letras. Só lembrava do nome “viajante” escrito. Tinha cheiro de mofo e pano sujo molhado por todos os corredores. O hotel não recebia o sol por nenhum lado. Uma ponte que atravessava a linha férrea e um prédio abandonado tampavam toda a claridade.

5.

Adormeci sem nenhuma dificuldade. Quase 9 horas depois acordei sem lembrar de nenhum sonho. Foi um sono de qualidade. O hotel era bem menos confortável que meu quarto e, mesmo assim, foi o melhor sono em 3 meses. Ficou claro que o meu apartamento tinha influência direta sobre as noites mal dormidas.

Fiquei enrolando na cama e pensando nessa diferença. Nem sequer notei que dormi com a roupa que cheguei um dia antes. Vi um papel entrar por baixo da porta. Era um bilhete de Angélica. Oferecia roupas emprestadas, oferecia companhia para uma refeição e oferecia uma surpresa que só revelaria pessoalmente.


6.

Eu morava sozinho – ou quase - bem perto do centro de São Paulo. Durante um ano, tive a companhia de Mônica de sexta à noite até segunda pela manhã. Não era um namoro, era um romance. Não fazíamos planos, não queríamos casar, não discutíamos nossos sentimentos. Apenas vivíamos misturados e cheios de paixão.

Pressentia que, um dia, talvez, ela mudasse de vez para lá. E nunca desconfiei que resolvesse morar tão longe. “Quero ser artista”, disse enrolada numa toalha ao sair do banheiro. Nós dois percebemos que aquele banho a transformara. “Você é uma artista”, eu sempre repetia, mas afirmou, ainda nua, que não daria mais aulas e iria tentar a sorte em Londres. Achei a idéia esplêndida. Era o que faltava para ela. Novos horizontes, chances reais numa capital civilizada. Passamos os dias organizando, sonhando, planejando e divagando. Seus olhos brilhavam. Ficou muito linda o fim de semana inteiro.

Um mês após seu embarque a novidade ainda me enchia de orgulho. No segundo mês, a síndrome de abstinência bateu. Eu não dormia mais. Tudo o que eu comia, voltava. Cada maçaneta, cada pedaço de rodapé, cada capa de livro tinha a sua presença. Era impossível ficar naquele apartamento sem o fantasma de Mônica por perto.

Arrumei mais um emprego. Saía às 6 da manhã e chegava meia noite e meia para fugir dos pedaços de Mônica pela casa. Mas eu não conseguia dormir. Comecei a voltar mais tarde ainda após zanzar por alguns bares. Alcoolizado, sofria muito de saudade. Não quis encarnar o clichê “homem-abandonado-bêbado-balcão-jazz-vômito-pizza“ e decidi largar os empregos diurnos e trabalhar na madrugada.


7.

Com o bilhete de Angélica na mão encontrei-os numa lanchonete próxima ao hotel. Era uma reunião de pauta misturada com desjejum. Quando me viu, Angélica levantou os braços como quem diz “demorou, hein?”. Sinalizou algo ao garçom enquanto todos me cumprimentavam e pouco depois de sentar uma omelete consistente chegou à minha frente. “Coma!”, Angélica ordenou. Mulher experiente. Sabia que eu só funcionaria com ordens, sabia que eu necessitava de uma babá.

Distribuiu mais ordens aos funcionários da equipe, até que pediu uma cerveja e olhou para mim. “Você não vai fazer nada! Está de folga hoje”, disse para me surpreender. Tentei argumentar qualquer coisa e me surpreendeu novamente dizendo “vai me acompanhar numa expedição boêmia pela cidade”. Aquela babá desarrumava a rotina que eu havia imposto para os meus dias tristes.

Foram todos trabalhar, um a um, ficamos eu e ela. Pouco tempo depois perambulávamos pelas ruas da pequena cidade. Um domingo livre na cidade do interior. As pessoas saem para passear, colocam suas melhores roupas, as crianças estão felizes, os adultos sentem a brisa quente no rosto. Adorei o passeio. Angélica não parava de falar. Duas horas inteiras de exemplos, recordações de vida, ditados, pensamentos. Disse que precisava de boas idéias e trabalhar naquele domingo a sufocaria. O ideal era “bundar por aí”. Em alguns momentos, ela falava de algo muito parecido com que eu vivia naqueles meses de saudade. Me empolgava em lhe contar tudo, mas ela me cortava, me atropelava com outro pensamento. Mesmo quando fazia perguntas não me dava chance de respondê-las. Pingamos de bar em bar, de barraca em barraca, rindo e falando sério ao mesmo tempo. A mulher era um furacão.

Deixou-me na porta do meu quarto e ordenou que me arrumasse – com as roupas emprestadas - para sairmos às 10 da noite.


8.

Mônica e Angélica eram opostas. Era evidente o quanto uma era objetiva e a outra subjetiva. Passavam-se semanas sem que Mônica opinasse em algumas situações; já Angélica não engolia opinião sequer sobre um espirro meu.

Com Mônica eu era meio chefão: a casa era minha, eu ganhava mais e sua indisposição para discutir ou defender algo me tornava o último a julgar. Ao contrário, Angélica me encontrou fraco, triste, insone e alienado. Os papéis se inverteram e ela adora me ver obedecer.

Passear com Mônica era poema em prosa com um sorriso tímido; passear com Angélica era filosofia política pesada com sorrisos sarcásticos. Nunca recebi uma ordem de Mônica; nunca sequer levantei minha voz para Angélica.


9.

Invadiu meu quarto no hotel tão ansiosa que entendi o nosso atraso. Saímos correndo de lá e encontramos o “cumpadi” num Maverick antigo, meio bege. Angélica falou o nome dele, mas não ouvi. O barulho do motor era mais alto dentro do carro do que fora e aumentou mais ainda quando seguimos por uma estrada.

Os dois conversavam, mas eu não escutava. Perguntei, quando se calaram, se íamos para outra cidade. Eles não ouviram, ou melhor, o “cumpadi” talvez sim. Fez um gesto para Angélica que eu, ao tentar ler os seus lábios, entendi como “o que essa bicha tá reclamando?” e ela devolveu gestos de mãos levantadas denotando saco cheio de nós dois.

O carro entrou numa via de terra que devia levar a alguma plantação. A lua não estava cheia, mas iluminava bem a noite e a pequena estrada. Carro desligado e um alívio enorme nos ouvidos. Os dois desceram rapidamente e acenderam um baseado. Angélica reclamou com voz de quem segura a fumaça no pulmão:

- Cada coisa que eu tenho que agüentar para fumar uma erva!

- Tu reclama de barriga cheia, filhinha de papai. Te trago num clima natural, cheiro de mato e tu dá uma de mal agradecida? Num te falei que só posso circular na cidade até às 10 da noite senão os cana me enquadra?

Eu chapei muito rápido. Os dois ficaram se estranhando e fumando por mais uns quinze minutos. Parecia natural para eles esse tipo de atitude numa conversa. A lua mandava alguns recados para mim, mas eu não entendia completamente. Amarelona, enorme, me deixava todo derretido. Talvez tenha me protegido daqueles dois. Me deixava menos vulnerável às gírias forçadas, ao barulho do automóvel, aos excessos vulgares, à violência nos modos.

Já na volta e similar a uma cena do filme Drugstore cowboy (de Gus Van Sant), o “cumpadi” saiu da estrada e entrou, sem brecar, no estacionamento do posto de beira de estrada. Derrubou vasos, assustou todos os clientes e fez aquele Maverick barulhento ficar muito esfumaçado quando, finalmente, conseguiu parar bem perto dos vidros da loja. Ele nem se importou com toda a balbúrdia, soltou um arroto e desceu rindo. Angélica bufou de aborrecimento. Eu passei a mão na testa para ver se sangrava. Dez minutos depois ele continuava a falar sem parar com a mesma atendente. Também era “cumpadi” dela, ou seja, fornecedor. Mais nova que Angélica, ela se insinuava bastante para ele. Foi a primeira vez que vi Angélica quieta por tanto tempo. Ciúme. Eu senti ciúme do ciúme dela. “Vamos embora!”, disse puxando–a pela mão.

Andamos pouco tempo pela estrada e logo passou um coletivo. Aceitou nosso chamado fora do ponto e parou. Corremos e subimos esbaforidos. Nada confortável, no nosso estado entorpecido, dar de cara com famílias voltando da missa de domingo naquele ônibus. Fomos alvo de atenção de todos por ali. Quando o ônibus saiu da estrada, com as ruas então iluminadas, avistamos um boteco qualquer e descemos para fugir dos olhares.

Era um bar de universitários. Moradores de repúblicas. Por ser na periferia, alguns bebuns pintavam por lá também e o ambiente era simples. Bem barulhento, bem cheio e ficaríamos bem anônimos. Demos conta de beber muito, falar muita besteira e ir repetidas vezes no banheiro imundo. Logo na saída do banheiro, descobri a alegria e o barulho dessa moçada: um videokê estridêntico. O casal cantava algum sucesso do carnaval baiano e me puxou para pular com eles. Meus reflexos, depois de uma hora e tanto bebendo, não reagiram para me desvencilhar e pulei junto com eles. Quando perceberam que não me conheciam, me soltaram rindo mais ainda. Eu só voltei para o meu ponto de origem: a mesa engordurada e cheia de cinza de cigarros.

Angélica embriagada se tornou mais receptiva e me interrompia menos. Seus reflexos estavam comprometidos e eu conseguia falar mais do que de costume. Consegui dizer que meu problema de voltar para casa era o sono, o apartamento, mas não consegui citar Mônica na conversa. Logo que acabei de situá-la no meu dia a dia com insônia, ela levantou e cantou no videokê, agora já vazio, uma música muito bonita chamada “Paulista”. Angélica olhava para mim enquanto cantava. Fiquei derretido e imaginei que ela sabia de tudo o que havia ocorrido com Mônica mesmo sem eu ter contado. Ela soube que me afetou e não lembro o que dizia até chegarmos no hotel, mas sei que suas expressões e sua voz eram mais complacentes. Andamos bastante até chegarmos ao hotel. Estávamos bem longe. Ela gritava bem alto em alguns momentos “táxi!!”, mas só aparecia a viatura da polícia pedindo silêncio.


10.

A música que me deixou derretido:


Paulista
Com Vânia Bastos
(Eduardo Gudin e J. C. Costa Netto)

Na Paulista
Os faróis já vão abrir
E um milhão de estrelas
Prontas pra invadir os jardins
Onde a gente aqueceu numa paixão
Manhãs frias de abril

Se a avenida
Exilou seus casarões
Quem reconstruiria nossas ilusões?
Me lembrei de contar pra você
Nessa canção
Que o amor conseguiu

Você sabe quantas noites eu te procurei?
Nessas ruas onde andei?
Conta, onde passeia hoje esse seu olhar?
Quantas fronteiras ele já cruzou?
No mundo inteiro de uma só cidade

Se os seus sonhos emigraram sem deixar
Nem pedra sobre pedra
Pra poder lembrar
Dou razão
É difícil hospedar no coração
Sentimentos assim

11.

Como excelente babá, Angélica me deu outra lição, entre tantas, para que eu dormisse em paz todas as próximas noites. Uma simples música, que serviria para ninar, chamada “Acabou chorare” dos Novos Baianos. A cada audição, os pedaços de Mônica pela casa e pelo meu coração foram sumindo. O sono voltou ao normal. Mulher experiente essa Angélica.