quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Lambe fogo

(Feira livre de domingo)


Lambe Fogo era o mendigo mais conhecido do bairro. Não só pelo tempo que já deixava seu rastro fedorento pelas ruas, como também por sua habilidade em recitar poemas. O apelido deve ter uns 20 anos de idade. Época em que desafiava os freqüentadores do botequim a comer pimentas em quantidades cavalares. Ganhava muitas doses de cachaça com essas apostas. Seu estômago e intestino devem depurar até prego novo, afinal cachaça e pimenta aos montes fazem de qualquer mortal uma incubadora de cirrose e doenças afins.

Quanto à sua hospedagem definitiva nas ruas, conheci pelo menos quatro versões diferentes. Todas amorosas. Desde não satisfazer a mulher que o largou, até encontrar a esposa lasciva nos braços de algum trabalhador de meio período. Conheci as versões em botecos, e acredito que devam existir mais entre as mulheres, nos salões de beleza e quitandas pelo bairro afora. Os poemas que Lambe Fogo lia eram atolados nessa aura de traição e desilusão amorosa. Todos de gosto muito duvidoso e desconhecidos. Talvez um caminho para entender sua chegada às ruas.

Eu o encontrava aos domingos na feira livre. Prato cheio para se exibir e misturar o seu odor de carniça com o das frutas. Às vezes ele tentava ser um “metrossexual” e se perfumava. O resultado era insuportável: imagine fezes misturadas com alfazema; cadáver em decomposição misturado com Channel nº5. Algo do gênero. Ele adorava ser um “gentleman” com suas poesias e perfumes, mas o efeito sobre as mulheres era desastroso.

Mas Lambe Fogo era insistente. Desfilava pela feira. Deixava a dona da banca de pastel, a Sra. Mitiko, de cabelos - e narinas – em pé. Ele não só afastava sua freguesia quando estava por perto, mas também a deixava sem poder respirar e com ânsia de vômito. Seu hálito remetia a odores de catacumbas de múmias que nunca tomaram sol, temperadas com um pouco de cachaça, evidente.

E com esse hálito matador que suas poesias eram odorizadas e percorriam as manhãs de domingo no meu bairro. Há uns dez anos atrás, a molecada não era tão avessa ao bebum sensível. Mas essa nova geração odeia sua presença, o considera persona non grata. É muito provável Lambe Fogo acordar incendiado no meio de alguma noite. Essa turma é capaz de qualquer maldade. Aliás, essa mesma geração é repleta de dependentes de drogas pesadas que ficam vagando pelas noites e cometendo pequenos crimes para saciar seu vício violento e urbano. Mas Lambe Fogo nunca representou perigo. Pelo contrário. Era a diversão mal cheirosa da região.

A última vez que o vi na rua, estava se escondendo da chuva num ponto de ônibus. O ponto estava lotado. Era engraçado ver aquela parada de ônibus cheia de gente tomando chuva bem distante dele e, ao mesmo tempo, Lambe Fogo sentado de forma muito confortável no banco. Era como se houvesse um buraco e todos em volta. Naquele dia, não recitou nenhuma poesia. Estava irritado com aquela chuva. Detestava água.


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Só em São Paulo


São Paulo me encanta. Na adolescência, eu ficava pensando que morar nessa cidade era como ter ganho na loteria. Meu bilhete premiado - a certidão de nascimento - está em frangalhos. Apesar do descuido com o documento, continuo muito orgulhoso de morar aqui. Sinto-me um privilegiado. Foi aqui que me tornei um cosmopolita sem precisar ir para Londres, Tóquio ou Nova Iorque. Foi fundamental me afirmar numa cidade cinza, caótica, enorme, multirracial e cheia de neons. Hoje não se vê tanto neon, mas eles ainda piscam sem ordem nas minhas memórias. Várias regiões do centro da cidade estão marcadas na minha lembrança.

Conheci o bairro da Liberdade tardiamente. Com 20 anos, aproximadamente, fazia um curso pré-vestibular na Rua Tamandaré e um dos amigos de sala morava lá. Nos levava para aquelas ruas movimentadas, coloridas e de postes vermelhos. Disse que num dos restaurantes japoneses havia uma garçonete que era a cara da Nastassja Kinski. À época, me saiu bem caro essa curiosidade. Mas nunca mais deixei de freqüentar o bairro, principalmente por lugares mais baratos, onde o garçom estava mais para Tião Macalé que para atrizes do cinema europeu.

E o bairro sempre tropeça nos meus dias. Ou porque a assembléia do sindicato é perto dali, ou porque estudo no mesmo bairro, ou porque alguns amigos moram na Rua Galvão Bueno. Num desses tropeços, conheci um boteco – ou restaurante, como queiram – chamado “Bentô House”.

Não consigo imaginar esse bar em outra cidade. Ele é o típico boteco brasileiro, mas enfiado no bairro japonês e que serve iguarias orientais. Os garçons são nordestinos ou descendentes, os proprietários orientais e a freguesia muito, mas muito diversa. Lá é fácil ver misturados moradores do bairro – portanto, de olhos puxados – com sindicalistas barbudos, japoneses com pinta de mafiosos, freqüentadores alcoólatras, mulheres chinesas comendo sozinhas, casais de namorados e vários mendigos pedindo dinheiro. Da última vez que estive lá, as mesas que ficam na rua tinham muitos negros. E todos de meia idade. Talvez alguma associação ou comunidade reunida. Uns dez cabeludos com camisetas de rock também faziam muito barulho nessa noite. As pessoas se cumprimentavam, indiferente da mesa de onde chegavam ou saíam. O bar pegava fogo.

Já estive lá na hora do almoço. É quente também, mas com menos álcool circulando e eles não estão para brincadeira. Logo que se entra, uma chamada avisa: “Servimos café, almoço e jantar, Happy Hour e petiscos”. Um sem fim de clientes e muito movimento por quase 20 horas por dia.

A parada durante a noite sempre foi estratégica para mim. Ele fica ao lado da Estação Liberdade do metrô. A intenção é aproveitar o papo até o último minuto antes do último trem, mas não lembro de ter conseguido chegar a tempo uma única vez. Sempre volto com algum ônibus noturno ou táxi. Ali é impossível um papo não ficar interessante e me fazer ir embora na hora certa, seja ele o lançamento de algum filme dos irmãos Cohen, seja como fazer para evitar uma ressaca ou fofocas de manicure e cabeleireiros. Tudo fica delicioso de conversar.

Não é possível cumprir horários com aquele garçom deixando rastros de odores. Guiozas, tempurás, shimejis e vinagretes de polvo e marisco não me deixam partir. E, assim, numa noite dessas, com o metrô fechado, nossa mesa era cerveja gelada e sushis. Minha amiga contava uma estória de manicure que não podia continuar sem comida e bebida. Aliás, um caso típico de um morador de São Paulo. A manicure estava preocupada com um casal gay. Ela era amiga de um deles e percebeu que tomava medicamento pesado. Transtorno afetivo bipolar, segundo ela. “E sabe por quê? Sabe? Porque ele também gosta de mulheres”. Os dois se amam, são casados, mas fazem pouco sexo. Quer dizer, um deles, pois o outro sai com muitas mulheres. “É um absurdo ele tomar remédio por causa disso", dizia minha amiga imitando a manicure. E todos nós também achamos um absurdo naquela mesa, quase no balcão já. Por que alguém tomaria remédio para afirmar a sexualidade? Mas , enfim , o tribunal provisório do Bentô House, direto do balcão sujo , não aprova a decisão do psiquiatra e reprova a resolução dos problemas através de medicamentos.

O bar fecha lá pelas duas da manhã. Infelizmente. E a moça que cuida da limpeza final ainda leva umas cantadas de um japonês com o cabelo pintado de loiro. Joga muito charme pra cima dele e joga muita água nos nossos pés. Volto para casa com a canela molhada, com o coração cheio e terno. Só São Paulo me deixa assim a essa hora. Rendido e satisfeito.


Obs: Esse texto também foi publicado no blog/projeto "Pândega". A foto é de uma embalagem de hashis do próprio Bentô

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Será meu último CD?


No texto “LPs ocupam mais espaço”, publicado aqui em 7 de janeiro, escrevi que não iria mais adquirir CDs. Continuo com a mesma opinião. Mas uns dois meses antes de escrevê-lo, comecei a comprar uma coleção de 20 CDs de clássicos do jazz da Folha. Não quis interromper. Cada domingo um artista interessante, uma capa dura em papel e um livreto com biografia, fotos e glossário musical. Não bastasse esses atrativos, um mimo que me conquistou: o biscoitinho é preto e copia um vinil.
Somente um ou dois domingos comprei na data certa, na data de lançamento. Em todas as outras ocasiões, arrematava um pequeno lote atrasado de dois ou três números perdidos. O último número, Lee Morgan, comprei na terça, dia 19. O cara é um trompetista fenomenal, cheio de suingue. Faz um soul-jazz bem dançante e classudo. Conhecia o hit “The sidewinder”, já a alguns anos, mas nunca tive nada dele em casa, a não ser em MP3.
Uma coincidência me incentivou a escrever sobre ele hoje. Morreu no dia 19 de fevereiro de 1972, ou seja, finalizei a coleção exatos 36 anos depois da sua morte. Ouvi logo que cheguei em casa, mas só li o livreto hoje e descobri a data. Foi assassinado pela própria mulher. Sabe como é, né? Muita heroína, mulheres, Nova Iorque e, após uma apresentação, uma discussão envolvendo ciúme terminou em um tiro no seu coração. Ele já não se drogava, e a mulher ajudou-o a largar da heroína. Mas já possuía um novo relacionamento amoroso, daí a provável discussão e causa do assassinato, segundo o livreto.
Não podia deixar passar. E, de qualquer forma, adorei o CD. Vale comentá-lo e me contradizer com o post que dizia que CDs não têm mais graça. Até tirei uma foto da capa, do CD imitando vinil e da tampinha da cerveja chamada Devassa que tomava enquanto o escutava em um boogaloo delicioso chamado “The rumproller”. O biscoitinho da foto é do Ornette Coleman, já que eu ouvia o Lee Morgan e o sol ia embora apressando a luz natural da foto. Vou deixar assim mesmo. Amanhã até poderia consertar a foto, mas não quero perder o espírito.

Meu gato gosta de jazz. Ele costuma dar uma pequena desfilada quando escuta. Faz um charme meio nova iorquino, apesar de ser branco e não consumir heroína. Depois deita perto de mim ou da caixa de som e fica pensando. Mas ele ainda não ouviu Lee Morgan. Vou procurar vinis do Miles Davis para ouvirmos juntos.



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Despedida

(Domingo de verão)


Passa da uma

você deve estar na cama
Você talvez
sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te
com o
relâmpago
de mais um telegrama
?

(Vladimir Maiakovski)

A campainha estava quebrada. O som que Fernanda fazia batendo na porta influenciou um pequeno sonho do meu cochilo. Ficou cômica a interferência. Era como se essa quimera fosse editada em velocidade bem maior: eu descia a escada muito rápido e abria a porta. Várias vezes esse mesmo trajeto. Num pequeno intervalo de tempo, talvez trinta segundos, ouvi a batida e abri a porta umas dez vezes. Bem engraçado. E só para personalidades. Os primeiros foram Freud, Reich e Jung abraçados – não podiam faltar quando se fala em sonhos. Alguns nem lembro, mas Andy Warhol, Frida Kahlo, Jimi Hendrix, Antonio Conselheiro e Glauber Rocha estavam lá me chamando. Antes de acordar ainda recebi “Cobi”, o mascote das Olimpíadas de Barcelona. Um pequeno sonho lisérgico. Só percebi que era Fernanda, quando ouvi o miado do gato preto dos telhados. Ele vinha por cima, mas sempre chegavam juntos. Acordei.

Desci quase tão rápido quanto no sonho. “Demorei pra te atender?”. Ela riu e me confortou com um beijo aromatizado de gim. Tirou o tênis e nossos pés faziam um ritmo na escada de madeira, acompanhando o chiado de agulha do lado “A” do disco que já tinha acabado e que reverberava lá em cima nos alto falantes. Ao mesmo tempo, ela assoviava uma canção da banda “Stereolab”. Perfeita trilha para quem somente sobe alguns degraus.

“Que cheiro bom”, disse sorrindo. Era o curry gritando na cozinha. Se transformou numa casca amarela no assado de frango. Estava faminta. Beliscou a comida nas panelas mesmo e nem pediu ajuda para esquentar seu prato, enquanto abria a porta e chamava o gato preto dos telhados. Ele veio muito rápido e nem notou minha presença. Os dois eram muito amigos, talvez até se tornassem confidentes, caso o gato aceitasse morar na casa dela. Seus olhos verdes encontravam os olhos verdes de Fernanda, seus cabelos eram tão negros quanto a cor dos pelos do gato. A conversa dos dois, recheada de onomatopéias, não me incluía. Quando terminaram, ela voltou com o prato cheiroso e quente, e o gato ficou na janela nos olhando. Era muito orgulhoso para entrar na minha casa. Fernanda colocou o lado “B” do disco para sonorizar sua pequena ceia.

Um temporal me aproximou de Fernanda. Foi fugindo da chuva que a conheci. Entre algumas opções para me proteger de tanta água, o ponto de ônibus ou alguma marquise não eram tão atrativas quanto o balcão de um bar. Fernanda não se protegia da chuva, mas também estava lá. Dez minutos depois que cheguei, saiu de uma mesa típica de confraternização de fim de ano e veio ao balcão reclamar de alguma coisa. O bar era no centro da cidade, mas já a tinha visto pelo meu bairro. Devia morar bem perto. Ela reclamava e ia se pendurando no balcão, falando alto e gesticulando. Quando estava próxima de mim, não agüentei e soltei: “Não espere muito desse bar, vizinha.”. Olhou-me firme, ainda furiosa. Virou um pouco para o lado, talvez para se acalmar, talvez para ser educada comigo, e respondeu que não era possível a coincidência. Caso fosse vizinha, ficaria envergonhada de tê-la encontrado numa espelunca daquela. “Adoro espeluncas” respondi rindo. Consegui convencê-la de que era mesmo seu vizinho e que conhecia um bartender mais caprichoso que prepararia um blood mary do jeito que ela queria, ali perto, num bar gay na Praça da República.

Já no outro bar, falamos de muitas coisas, menos de nós mesmos. Fomos muito bem servidos pelo bartender que tanto confio e trocamos nossos meios de contato. Mas não nos telefonamos. Só a revi quando apareceu na porta da minha casa, de repente, numa madrugada dessas, chegando da rua. “Oi vizinho”, seu sorriso me inebriou. Ela era uma típica italiana alta, com bochechas vermelhas, nariz bem formado e fino, os olhos verdes e os cabelos negros – lindos e já citados no composit com o gato preto dos telhados.

Dentro de casa, ela se revelou uma companhia ainda melhor que no bar. Divertida, sagaz e simples ao mesmo tempo. E então ela surgia em várias madrugadas. Sempre aos fins de semana. Geralmente de sábado para domingo. Nós não falávamos do dia a dia. Não soube qual sua profissão, nem soube de sua família. Se ela tivesse mentido seu nome para mim, pouco importaria. O importante era o vinho, a erva que ela trazia para fumarmos, era o que cozinhávamos, eram nossos carinhos e os prazeres pela noite. Há um tempo atrás, quando avistava Fernanda pelo bairro, nunca poderia imaginá-la acordando ao meu lado.

Era estranho e delicioso esse convívio na minha casa, na forma de um segredo dentro de um esconderijo. Nunca perguntei por que somente nesses dias e nesses horários. Talvez porque namorava outro homem, mas nunca quis comprovar. Sabem-se lá quantos tombos levei antes de me controlar da ansiedade de querer saber tudo e ver todos os meus desejos realizados. Aprendi na hora certa. Do contrário, Fernanda nunca voltaria, nunca me daria tanto prazer. Era uma espécie de moeda para tê-la por perto. Bem educativa essa tática.

Naquela madrugada de frango com curry, fizemos de tudo. Dançamos, nos entorpecemos, falamos da lua, ela leu muitos poemas de Maiakovski, acordamos nus e cansados. Rimos muito quando ela encarnou o clichê “Kim Basinger anos 80” vestindo minhas roupas de trabalho para andar pela casa. Só estranhei o fato dela não ter ido embora quando ainda estivesse escuro. Resmungou ainda com sono que dormiria mais e que eu devia fechar a janela para escurecer o quarto. Aquilo era inédito.

Pela primeira vez vi o sol batendo no seu rosto. Seus olhos ficaram mais claros e seu cabelo mais brilhante. Sua pele era clara, muito clara, e a luz do dia lhe acariciava com cuidado. Era muito mais linda de dia. Fiquei derretido com a sua presença vestida em minhas roupas, deixando rastros pela casa.

O domingo foi uma cópia diurna do que fazíamos nas madrugadas. Todos os prazeres, todas as risadas, todas as horas entorpecidas, os odores de incenso, comida e cannabis. Foi longo, muito longo. Aproveitamos cada minuto. Nossas palavras pareciam objetos voando pela casa. Se materializavam. Ela só se preparou para ir embora ao anoitecer. Saiu na hora que a lâmpada do poste acendeu. Sua despedida foi como qualquer outra, igual às anteriores.

Tive dificuldade para dormir. Um pressentimento e uma desconfiança que nunca mais a veria me invadiram por completo. Perdi o controle e a ansiedade tentava me dizer que ela passou o domingo inteiro comigo para servir como despedida. Me acalmei somente quando lembrei da moeda, do preço de tê-la por perto: ansiedade controlada.

Alguns dias depois, na mercearia do bairro, alguém falava dela, talvez um familiar. Contava ao funcionário que ela tinha mudado da cidade junto com o namorado para uma cidade no sul do país. Se casariam logo. Percebi que era somente um sonho, que eu não estava na mercearia. Acordei. Mas mesmo assim nunca mais a vi.


domingo, 3 de fevereiro de 2008

Carnaval com Amy


A encomenda demorou, mas chegou. Os primeiros vinis chegaram em menos de 20 dias. Mas esse da Amy demorou quarenta dias. “Back to black” chegou na quinta para alegrar minha tarde no trabalho.

Ouvi Amy Winehouse pela primeira vez em 2006 para 2007, na Rádio Eldorado. Demorei a saber quem era. O locutor dizia seu nome, mas eu não ouvia, ou falava muito rápido e eu não entendia. Um dia desses, cheguei em casa de madrugada, acendi a TV, com o intuito mesmo de iluminar o quarto, e ela estava lá. “Ela é branca?”, foi a primeira coisa que pensei. Buscava a imagem dela lá nos 60’s e em toda a onda soul music, nunca a imaginaria branca.

Na manhã seguinte eu já tinha o álbum dela baixado em mp3. É um disco delicioso, cheio de suingue e groove, graças a um naipe de metais e melodias vindas dos backing vocals que chacoalham qualquer defunto. A voz? Bom, para uma branca ter essa voz, só seria possível se fosse tratada no álcool. E foi mesmo. Com muitas drogas também. As letras são ótimas, cheias de amor, um pouco de sarcasmo, e mais drogas e álcool. Em “rehab”, que abre o álbum e é a música que a deixou famosa em todo o mundo, ela não quer ser internada, e começa a canção com “they tried to make me go to rehab, but i say ‘no, no, no’”. Na mesma canção ela diz que sempre tem uma bebida por perto porque sabe que vai perder seu amor.

Ela tem aparecido no noticiário e nos tablóides ingleses cercada de problemas com a lei e com sua dependência química. Até achava um pouco charmoso no começo, mas sinto que perdeu a graça e compromete seu talento. Quero vê-la cantando, se apresentando pelo mundo e não presa ou doente. “Tome tenência , menina!”

Já ouvi o vinil umas quatro vezes, desde quinta. E me acompanhará por todo o carnaval. Abaixo, coloco o vídeo clipe de “rehab”. Curtam. Sem moderação.



quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Aberto para balanço


Ultimo dia de Janeiro e quero contabilizar os filmes que assisti no mês. Em fevereiro não devo repetir essa contagem por aqui no blog. Adquiri alguns filmes de uma locadora muito boa que fechou. Achei um site que tem muita coisa boa para baixar também. O mês foi agitado e quero esse ritmo o ano inteiro. O post de hoje serve como incentivo para manter uma boa média mensal e chegar a 100 filmes assistidos até o final do ano. Só fui duas vezes a algum cineclube, frequência que pretendo aumentar. Sem sofrimento, pode crer!

Escolhi o poster de “Árido movie” para colocar aqui ao lado. Gostei muito do filme. É dirigido por Lírio Ferreira, que também fez “Baile perfumado”. As duas películas mostram o sertão de uma forma bem menos caricatural que outros filmes, daí meu apreço. "Árido movie" é um filme de estrada, com muitas locações externas. Tem uma pegada meio marginal por tratar com tanta naturalidade alguns temas como drogas, escassez de água, política, tráfico de influências e relações familiares destruídas. Qualquer hora falo dele por aqui. Recomendo.

Abaixo, a lista do mês. Filme, ano, diretor e onde assisti. Reprise, caso já tenha visto.

“Crônica da cidade amada” – 1965 – Carlos Hugo Christensen – Sala do CCBB

“Uma noite sobre a Terra” – 1991 – Jim Jarmusch – DVD (Download internet)- Reprise

“Jurassic PArk 3“ – 2001 – Joe Johnston – TV Globo

“Novembro” - 2003 – Achero Mañas – TVA Eurochannel

“Velvet Goldmine” – 1998 – Todd Haynes – DVD (Download internet)- Reprise

“Lei do desejo” – 1986 - Pedro Almodóvar - HSBC Belas Artes

“Árido Movie” – 2006 – Lírio Ferreira - DVD (Download intenet)

“Entre dois amores” – 1985 – Sydney Pollack – DVD (Acervo pessoal)- Reprise

“Orfeu” – 1949 – Jean Cocteau - DVD (Acervo pessoal)

“Obsessão” – 1942 – Luchino Visconti - DVD (Acervo pessoal)

“Alphaville” – 1965 – Jean Luc Godard - DVD (Acervo pessoal)

“Amarelo manga” – 2003 – Cláudio Assis - DVD (Acervo pessoal)- Reprise

“O profissional” – 1994 – Jean Luc Besson – TVA Cinemax Prime - Reprise

“Os infiltrados” – 2006 – Martin Scorcese - TVA Cinemax Prime


quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Crítica ao texto "Livre arbítrio"

Abaixo leiam a crítica ao meu texto,"Livre arbítrio", escrita por Plínio, do blog Crimidéia. Recomendo. Apareçam por lá também. Mais informações sobre a atividade dos textos e das críticas nos posts "Parênteses" e "Parênteses 2". Nessa etapa da atividade critiquei o texto "Um segundo" do blog "Três dedos de prosa".

"O conto é cru, realista, palpável. O vocabulário consegue se manter simples sem se tornar repetitivo. A construção de imagens e cenários é interessante, mas acredito que possa ser um pouco mais concreta.

É fascinante a imagem do homem cansado do mundo, que se diverte com seu próprio sarcasmo, já não dá a mínima para o que pensam os outros, num embate de consciência levado pela nostalgia. Acaba por mostrar o quanto essa nostalgia é sem sentido, sem valor. Afinal, de gravata ou de bermuda, com dinheiro ou com cachaça, somos todos vítimas de nós mesmos e desta merda que nos rodeia. Se temos que escolher entre fingir uma vida de moralidade e dedicação a um objetivo cristão ou assumir a própria humanidade, respirar as moscas e continuar vivendo, o Marcelo do texto escolhe a segunda alternativa e sorri de peito aberto diante do mundo cinza que expõe.

Abrir bem os olhos e enxergar as pessoas e situações nuas, sem disfarces, com todos os seus erros e vícios. Aproveitar com o melhor humor possível os pequenos prazeres antes que a velhice, um ataque cardíaco ou um carro desgovernado te leve pra fora desse jogo à que chamamos vida. É isso que o texto nos diz."

Embriague-se, Marcelo, curta as festas e mande o gerente do banco fazer um rolinho com as apólices de investimentos e enfiar. Porque, no final, diante da inevitabilidade do estado de decomposição da vida, seja casando com uma Tânia da vida ou torrando o seguro desemprego na Praça Roosevelt, seu ombro esquerdo lhe será certamente conselheiro muito mais sábio."



quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Parênteses 2

Outras notas e a crítica

-Conforme prometido, publico a crítica ao texto "Quem define os sonhos?" postado aqui no dia 11 de janeiro e redigida por Fernando Thadeu. Não custa repetir: essa crítica ao texto, o próprio e o post mais recente chamado "Livre arbítrio" fazem parte de uma atividade (ou brincadeira) de alguns alunos de jornalismo, eu incluso, ciceroneados pela professora de Língua Portuguesa, Ana Ziccardi, que sugere temas e sorteia quem vai criticar o texto de quem. Mais informações no post "Parênteses".

-Os temas sugeridos nessa etapa foram " A vida em um segundo" e "A vida é feita de escolhas", algo por aí. Participam dessa atividade os blogs: Sogripa! O blog - Blog do Thadeu - Jesus me chicoteia! - Três dedos de prosa... - Crimidéia - Expresso sem açúcar , por favor! - Em busca do inefável
Leia!

-A minha participação como crítico foi postada no blog "Jesus, me chicoteia!". A crítica, que intitulei "Desequilíbrio na cadeia alimentar", trata do texto "Concorrência desleal", publicado no mesmo blog. Aliás, recomendo a leitura deste para deleite e diversão.

-O próximo passo da atividade é a publicação, aqui no "Amor aos domingos", da crítica ao texto "Livre arbítrio".

-Fernando Thadeu, que preferiu não colocar título ao seu texto, dá sua opinião sobre "Quem define os sonhos?" a seguir.

"O texto de Marcelo Fabri é muito criativo, apresente uma boa desenvoltura em sua forma e no desenrolar da estória. Gostei muito do texto, mas acredito que poderia ter investido um pouco mais no final.
Imagino que o Marcelo escreve com muita facilidade, pois é isso que fica claro quando lemos suas descrições. Enquanto lia o texto, um filme passava em minha cabeça. E, geralmente, é sempre isso o que acontece quando leio textos que me agradam.
Apenas o título não me chamou muito a atenção, mas tenho certeza de que se o Marcelo colocar sua criatividade para funcionar, os títulos ficarão bem melhores.
Às vezes, por esquecimento ou desgaste da imaginação, acabamos por não dar um real valor ao título, a porta de entrada para a leitura de nosso texto."

(Fernando Thadeu Fonseca dos Santos)


terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Livre arbítrio

(Visita de domingo)


Prestes a tomar alguma decisão me lembro do clichê, muito utilizado por publicidade e desenhos animados, do anjo e do diabo pendurados nos ombros, num debate de quais escolhas são corretas. Além disso, me escondo em alguma parte da casa e começo a falar sozinho. Na verdade falo com as criaturinhas. No ombro esquerdo, o diabinho sugere as coisas subversivas e do prazer sem limites e o anjinho na direita, tudo aquilo que é sensato e de acordo com os bons costumes. Entro na banheira cheia e fico sentado com os ombros fora da água. Quando uma das criaturinhas se invoca e usa artifícios muito baixos na sua argumentação eu deito mais na banheira e afogo o lado que está me irritando.

Mas ali no banco, em frente ao gerente da minha conta, eu não tinha nenhum lugar para ficar sozinho e falar alto comigo mesmo. As criaturinhas ficariam envergonhadas de aparecer em um local público. Disse ao engravatado que pensaria e traria uma resposta. O seu olhar foi impiedoso, pior que o de uma mãe irritada, para soltar uma frase indigesta: “você foi demitido e cada dia que protela para investir seu dinheiro, ele vale menos”.

Assim como o personagem de Nicholas Cage, no filme “Despedida em Las Vegas”, resolve beber até morrer depois de ser demitido, eu decidi gastar toda a minha indenização e os meus direitos trabalhistas até minguá-los e não trabalhar. O ombro esquerdo levou a partida. O diabinho não usou um argumento tão sofisticado, mas me fez refletir que a criatividade é o que move minha profissão. Portanto, resolvi me entregar aos prazeres. Sentir o cheiro do bairro em horários desconhecidos até então, deixar a brisa da madrugada bater no meu rosto, ver os dias amanhecerem, chegar tarde nos bares, filosofar no meio do dia com algum amigo e não ter hora para me entorpecer. Afoguei o gerente de banco pelo ombro direito.

Dois meses como “bon vivant” e não tive nenhuma crise de consciência. Nem lembrei que pudesse ser uma escolha atrevida, egoísta e que pudesse ser recriminada. Mas quando vi Renatinho de longe, parado numa esquina perto de casa, o germe da dúvida colocou a cabeça para fora.

Ele era dono de um típico boteco do centro, na rua Nestor Pestana. Azulejos coloridos, balcão de fórmica, cheio de bebuns e prostitutas, freqüentado por atores, jornalistas, músicos, atrizes e alcoólatras de escritórios da redondeza. Minha cara. Depois que o pai morreu, o bar durou pouco na mão dele e do irmão. Não o vejo há dez anos, um pouco menos. Uma ex-namorada nos afastou. Tânia chegava mais cedo que eu no bar e ele aproveitava o meu atraso para ser simpático e gentil. Depois de um tempo, para ser abusado e lascivo o suficiente e levá-la ao fundo do bar. Sabe-se lá quanto tempo e quantas escapadas foram necessárias até decidirem ficar juntos.

Ali, parado na esquina, os seus amigos o chamavam de Renato, sem o diminutivo. Dez da manhã. Eu chapado e ele vestido para o futebol. Mas por que perto da minha casa? São Paulo é tão grande. O sol fazia cócegas no meu pensamento. Não conseguiria me controlar e ia rir sem parar quando estivesse na frente dele. Ia ser desastroso. Ainda escutava as músicas da festa que acabara de sair. Não queria um papo nostálgico para afastá-las, aliás, eu não estava em condições de conversar.

Tentando atravessar a rua, quase fui atropelado. O barulho da freada chamou atenção dele e de todos, naturalmente. Não me abati pelo ocorrido e, como previsto, comecei a rir enquanto ele falava alto um monte de coisa de quem mata as saudades. Eu não ouvi nada. Parecia que eu ainda estava na festa com a música alta e seus lábios se mexiam produzindo um som bem menor. Nem sei como cheguei em casa depois desse rápido encontro.

À noite, acordei com o seu telefonema. Reclamou bem humorado que eu ainda estava em casa. Eu havia combinado de passar na casa deles hoje mesmo. Sim, eles ainda formavam um casal. Segundo ele, prometi até levar um sorvete e só não decidi o sabor porque não parava de rir.

- Você vem ou não vem? – perguntou.

Por um instante achei que precisaria papear sozinho com meus ombros. A primeira centelha de insegurança desde o desprezo ao gerente de banco. Era natural esse sentimento. Eu encontraria Tânia que me trocou por alguém que sempre escolheu por trabalhar. O que eu diria a eles quando me perguntassem sobre trabalho? “Veja bem. Um diabinho me soprou na banheira, pelo ouvido esquerdo, que devo aproveitar o máximo que a vida e o dinheiro têm a oferecer”. Digo pelo menos quando pretendo voltar a trabalhar? Que piada! Que se danem. Engulam com ou sem água minha resposta.

- Em quarenta e cinco minutos chego à sua casa. - respondi com firmeza.

Olhando aquele casal com seus três filhos, fiquei orgulhoso das minhas decisões. Toda insegurança foi embora quando entrei naquela casa. Tânia desfigurada pelo matrimônio, nem trabalhava mais. Só cuidava da casa e dos filhos. Renatinho só fazia alguma caridade a ela quando resolvia cozinhar macarrão com molho de caixinha ou a levava em algum shopping suburbano. As crianças davam tanto trabalho, que quase não conseguíamos conversar. O que era bom, de certa forma. Não queria profundidade.

Eu tive a impressão que o passado ficou tão distante para eles que talvez tenham esquecido que era comigo que Tânia namorava. Mas ela não deve ter esquecido que sua escolha à época era casar e ter filhos. A escolha de Renatinho nunca me interessou. Com as crianças chorando me despedi aliviado. “Até à próxima!”, menti.

Um táxi me deixou na porta da próxima farra, na Praça Roosevelt, muito perto da Rua Nestor Pestana.


domingo, 13 de janeiro de 2008

Parênteses

Algumas notas.

-Esse blog foi criado a partir de uma atividade sugerida pela professora de Língua Portuguesa do curso de jornalismo que estou matriculado, junto com outros alunos do curso, que ainda nem conheço. Soube da sua idéia em dezembro de 2007 e logo quis participar. A coisa funciona assim: ela sugere um tema, nós escrevemos, postamos nos blogs e, em seguida, sorteia quem vai criticar o texto do outro. Feita a crítica, será postada e assinada. Portanto, o texto abaixo, "Quem define os sonhos?", e somente ele por enquanto, faz parte dessa atividade. O próximo texto deverá ser a crítica assinada por um dos alunos.

-O nome "Amor aos domingos" se refere a um projeto antigo de escrever textos em que o domingo seja um dos elementos. Então, toda vez que eu escrever ficção, terá um subtítulo entre parênteses que situa a aparição do domingo, assim como em "Vento frio" que acrescentei "(Domingo após o trabalho)".

-Criar um blog também era um projeto antigo. A atividade sugerida pela professora foi um empurrão na hora certa. Aproveitarei o espaço do blog para dar algumas opiniões, relatar sentimentos, sugerir lugares, entre outros tantos usos que farei. Quero treinar

-Os temas da atividade ficaram assim: "promessas de ano novo" ou "freegans". E os blogs são: Sogripa! O blog - Blog do Thadeu - Jesus me chicoteia! - Três dedos de prosa... - Grita São Paulo - Expresso sem açúcar , por favor! - Em busca do inefável
Leia!